quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Cega, mulher deixa a prisão por decisão da Justiça

Elizabete vivia da venda de recicláveis quando foi detida por força de um mandado de prisão. Imagem: Léo Malafaia/Esp DP
Elizabete Carmem da Silva tinha 40 anos quando o companheiro jogou álcool veicular dentro de seus olhos. Aconteceu durante uma discussão. João, o agressor, não queria o olhar dela direcionado a outros homens. E decidiu que, dali em diante, Elizabete não enxergaria mais. Desorientada pela visão turva, a mulher segurou uma faca de cortar pão e atingiu o agressor. Depois fugiu, deixando o corpo sem vida para trás e uma história de violência doméstica que perdurou por dois anos. Em uma outra discussão, ela findou com o braço direito quebrado.

A cena aconteceu há 17 anos, em Paudalho, na Mata Norte do estado. Desde então, Elizabete passou a viver nas ruas do Centro do Recife, cega e sobrevivendo com o dinheiro obtido com a venda de material reciclável coletado junto com o atual companheiro. Durante todo esse tempo, havia uma prisão preventiva a ser cumprida contra ela.

Ironicamente, a prisão somente foi possível no último dia 19 de setembro, quando a Justiça localizou Elizabete através dos dados do Benefício de Prestação Continuada (BPC). O valor foi concedido por conta da deficiência visual, em novembro do ano passado, após um trabalho sensível da Divisão de Benefício Social da Prefeitura do Recife. Graças ao BPC, ela saiu das ruas com o companheiro, Gilson Pedro dos Santos, 64, e alugou uma casa simples na periferia do Recife.

Após passar 36 dias recolhida na Colônia Penal Feminina do Recife, na última quarta-feira (24) pela manhã, Elizabete deixou a prisão. Sentiu o vento no rosto e vibrou. “Lá dentro era muito abafado.” O caso da catadora está nas mãos do defensor público José Wilker Neves, sub-defensor cível e criminal da Região Metropolitana. Sensibilizado com a história da mulher, Wilker pediu ao juiz de Paudalho, Guilherme Arzani, a revogação da prisão preventiva.

Elizabete estava feliz com a possibilidade de voltar para casa no final da manhã de ontem. “Me arrependo do que fiz. Já pedi perdão a Deus. Hoje quem sabe do meu destino é o juiz. Mas penso que poderia ser solta. Fui eu quem levei o desacerto”.

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